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Sinistro


É uma pena eu não saber a autoria...



Escrito por andré às 11h02
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ai que inveja...


Linier's



Escrito por andré às 11h18
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20 de novembro


...I've got my freedom, I've got the life!



Escrito por andré às 16h58
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Timoneiro

E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

As coisas já tomaram tamanha proporção que atualmente poucos se questionam. Refletir virou esporte de luxo. E o que a maioria tem feito é somente torcer (ou rezar) pra que a viagem não acabe enquanto corre. Pra que dê tempo de terminar a faculdade, conseguir um outro emprego, encontrar um grande amor, quitar as dívidas, conseguir uma casa própria ou somente tomar uma caipirinha no final da tarde de sexta-feira...
Tenho a nítida impressão que muitas vezes estamos somente à deriva, sendo carregados.
Semana passada senti um estranhamento ao ver as luzes e enfeites de natal. Não sei se por não me importar com isso (desde criança - agradeço à Deus por meus pais serem cristãos luteranos e nunca terem feito essa bobagem de ceia às 00h) e ter já desconstruído essa imagem falsa de felicidade comprada nos finais de ano aquilo causou estranhamento por não significar nada.
Não sei se aquele que espera ansioso pela data e se alegra ao colocar os enfeites e luzes em suas casas se sente melhor que eu por ter um objetivo de ser feliz ao menos essa época do ano. Por outro lado, esse sujeito se torna um desgraçado maior quando não consegue nem isso; quando não tem uma ceia de natal as 00h com presentes e panetone Bauduco.
Mas acho que o maior espanto foi de cair a ficha que o ano passou rápido (aliás, tenho a impressão que cada ano é menor) e que foram poucas vezes que consegui refletir sobre algo, pensar algo novo, ter uma boa idéia e rir com os amigos sem olhar no relógio...

Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me navega
Como nem fosse levar
É ele quem me navega
Como nem fosse levar

Reparem que é muito diferente do "deixa a vida me levar (vida leva eu)"  - que é ruim até de sintaxe. Está claro que não se tem mais controle, é o mar que nos navega, ou é a vida que nos vive e ou nos traga e não nós que vivemos a vida(mesmo porque viver a morte seria algo esquisitíssimo - piada infame). O ritmo de vida imposto é muito mais selvagem do que parece (e ele não tem cabelos que a gente possa agarrar). É aí que a angústia, essa bandida, ataca. E leva cada um a escolher uma loucura particular para tentar se aliviar dela.

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

Como bom cristão luterano, comunista e materialista histórico (adoraria ver sua cara de ponto de interrogação agora se perguntando: como isso é possível?) não me sinto impelido a deixar esse leme nas mãos de Deus. É mais confortante, eu sei, mas creio tanto em Deus que penso que Ele nos fez com capacidade mental, intelectual, emocional, psicológica e física suficientes para que nós mesmos resolvêssemos nossos problemas humanos e terrenos. Para o problema que a alma encerra e que não conseguiríamos resolver Ele domonstrou seu amor infinito através de Cristo. Agora o resto (se é que a existência é "só" o resto) é por nossa conta.

Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me navega
Como nem fosse levar
É ele quem me navega
Como nem fosse levar

A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

É desesperador não ter resposta, sobretudo para quem faz a pergunta. Por isso tento lançar a rede todos os dias, mesmo que ela volte vazia, mas cheia de dor, na maioria das vezes. Porque saber que está nesse redemoinho já é grande coisa, saber que não dá para escapar dele possibilita arquitetar planos para lançar novas redes. Por saber que as coisas daqui nós resolvemos aqui sei que essa mesma vida que se fez de louca e que me carrega pode também me trazer algo de bom como um samba do Paulinho da Viola, um beijo na boca com vontade, um abraço amigo, risos descompromissados,etc.



Escrito por andré às 13h25
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A Turba da UNIBAN

(Enquanto eu não atenuo minhas angústias e consigo tempo pra escrever algumas coisas que tilintam na minha cabeça segue um ótimo texto do Contardo Calligaris publicado na Folha de SP no caderno Ilustrada dia 05/11/2009)

NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.
 
O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.



Escrito por andré às 10h25
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