Há aqueles que brigam com tudo, e se pretendem Quixotes, mas quando em palco cai o fundo uma verdade se remove
e o que se vê é outra cena, onde, fantoches de si mesmos, pintam um quadro surreal – em meio a tons pastéis-torresmos outra comédia nos acena: egos inflados em carnaval.
Somem as lanças de papel, das armaduras ficam nus e gesticulam querubins, mascarados pelo céu
de suas solidões em vão.
Há um que berra e surta, em exagero oligofrênico – enquanto a “coréia” o aplaude e vaia um pobre inculto que percebe o fingimento.
Um outro se diz alquimista, capaz de transformar em ouro a merda, se lhe fizerem coro – sua platéia goza uníssona.
E, assim, nas noites das décadas, exibem-se os menestréis nesta cidade em que as pétalas são notas de rodapés.
Mais vale expor a intimidade do que escrever algo que valha – pois, se a poesia falha, a biografia, quem sabe?
“Cada qual com seus problemas”, loucura, magia ou fimose, serve ao público que os devore, fingindo comer poemas.
No entanto, lá, no canto do boteco, o poeta que finge sem ser cancro de si mesmo, observa,
ao sofrimento da luz, que fulgura em seus neurônios, reinventa o que traduz em seus goles de plutônio.
Em sua dignidade de Cervantes, eu, um reles Sancho Pança, observo-o a distância: a anunciação do mito andante.
Yury Miyamura
Eu sei, é o quarto post seguido que não coloco um texto meu aqui. Mas trabalhar e lidar com o final do semestre é hard core. E tem algumas coisas que chegam até mim ou que eu encontro que tenho que compartilhar.Assim como essa poesia que o Yury mandou pra mim, segundo ele, por engano...sorte a nossa que ele se enganou...
E quanto mais remo mais rezo Pra nunca mais se acabar Essa viagem que faz O mar em torno do mar Meu velho um dia falou Com seu jeito de avisar: - Olha, o mar não tem cabelos Que a gente possa agarrar
As coisas já tomaram tamanha proporção que atualmente poucos se questionam. Refletir virou esporte de luxo. E o que a maioria tem feito é somente torcer (ou rezar) pra que a viagem não acabe enquanto corre. Pra que dê tempo de terminar a faculdade, conseguir um outro emprego, encontrar um grande amor, quitar as dívidas, conseguir uma casa própria ou somente tomar uma caipirinha no final da tarde de sexta-feira... Tenho a nítida impressão que muitas vezes estamos somente à deriva, sendo carregados. Semana passada senti um estranhamento ao ver as luzes e enfeites de natal. Não sei se por não me importar com isso (desde criança - agradeço à Deus por meus pais serem cristãos luteranos e nunca terem feito essa bobagem de ceia às 00h) e ter já desconstruído essa imagem falsa de felicidade comprada nos finais de ano aquilo causou estranhamento por não significar nada. Não sei se aquele que espera ansioso pela data e se alegra ao colocar os enfeites e luzes em suas casas se sente melhor que eu por ter um objetivo de ser feliz ao menos essa época do ano. Por outro lado, esse sujeito se torna um desgraçado maior quando não consegue nem isso; quando não tem uma ceia de natal as 00h com presentes e panetone Bauduco. Mas acho que o maior espanto foi de cair a ficha que o ano passou rápido (aliás, tenho a impressão que cada ano é menor) e que foram poucas vezes que consegui refletir sobre algo, pensar algo novo, ter uma boa idéia e rir com os amigos sem olhar no relógio...
Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar É ele quem me navega Como nem fosse levar É ele quem me navega Como nem fosse levar
Reparem que é muito diferente do "deixa a vida me levar (vida leva eu)" - que é ruim até de sintaxe. Está claro que não se tem mais controle, é o mar que nos navega, ou é a vida que nos vive e ou nos traga e não nós que vivemos a vida(mesmo porque viver a morte seria algo esquisitíssimo - piada infame). O ritmo de vida imposto é muito mais selvagem do que parece (e ele não tem cabelos que a gente possa agarrar). É aí que a angústia, essa bandida, ataca. E leva cada um a escolher uma loucura particular para tentar se aliviar dela.
Timoneiro nunca fui Que eu não sou de velejar O leme da minha vida Deus é quem faz governar E quando alguém me pergunta Como se faz pra nadar Explico que eu não navego Quem me navega é o mar
Como bom cristão luterano, comunista e materialista histórico (adoraria ver sua cara de ponto de interrogação agora se perguntando: como isso é possível?) não me sinto impelido a deixar esse leme nas mãos de Deus. É mais confortante, eu sei, mas creio tanto em Deus que penso que Ele nos fez com capacidade mental, intelectual, emocional, psicológica e física suficientes para que nós mesmos resolvêssemos nossos problemas humanos e terrenos. Para o problema que a alma encerra e que não conseguiríamos resolver Ele domonstrou seu amor infinito através de Cristo. Agora o resto (se é que a existência é "só" o resto) é por nossa conta.
Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar É ele quem me navega Como nem fosse levar É ele quem me navega Como nem fosse levar
A rede do meu destino Parece a de um pescador Quando retorna vazia Vem carregada de dor Vivo num redemoinho Deus bem sabe o que ele faz A onda que me carrega Ela mesma é quem me traz
É desesperador não ter resposta, sobretudo para quem faz a pergunta. Por isso tento lançar a rede todos os dias, mesmo que ela volte vazia, mas cheia de dor, na maioria das vezes. Porque saber que está nesse redemoinho já é grande coisa, saber que não dá para escapar dele possibilita arquitetar planos para lançar novas redes. Por saber que as coisas daqui nós resolvemos aqui sei que essa mesma vida que se fez de louca e que me carrega pode também me trazer algo de bom como um samba do Paulinho da Viola, um beijo na boca com vontade, um abraço amigo, risos descompromissados,etc.
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BRASIL, Sudeste, SAO CARLOS, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Arte e cultura, Política, Filosofias de Buteco MSN - andre_rocharodrigues@hotmail.com